“Se trans são ‘doentes’, queremos aposentadoria e auxílio”
Ativista Daniella Veyga falou sobre a taxa de homicídios de pessoas trans e inserção na política

Há anos dedicada em defender os direitos das pessoas travestis e transsexuais no Brasil, a ativista Daniella Veyga comemorou a nova classificação mundial que desconsidera que a transsexualidade seja uma doença.
A conquista, considerada histórica para o movimento, desmistificou uma crença transfóbica que por anos fez parte da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 11), utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
"Nós não estamos doentes. Se estamos doentes eu acho que a gente precisa ter uma aposentadoria, um auxilio doença, uma vaga especial no ônibus, quero ter acesso a uma fila preferencial", ironizou.
Em entrevista ao MidiaNews, Daniella comentou os dados dos homicídios que ocorreram a pessoas trans até 2021. Com o Brasil mantendo o primeiro lugar entre os que mais matam travestis e transsexuais no mundo, a ativista falou que o país entra em contradição por também ser o que mais consome pornografia com pessoas trans.
"É o país que mais deseja sexualmente as pessoas trans de forma escondida, sigilosa, e o que mais mata. Acredito que deve ser alguma questão psíquica, psicológica ou um mecanismo de defesa do opressor".
A ativista também falou sobre a importância da candidatura e inserção dos LGBTs na política mato-grossense para que as pautas de políticas públicas possam finalmente ter espaço no Legislativo e Executivo.
Leia os principais trechos da entrevista:
Como as pessoas trans são vistas hoje no Brasil? Falta representatividade na mídia?
Daniella Veyga - Acredito que a tecnologia veio para fazer a informação chegar a cada pessoa, então isso fez com que a população de travestis e transexuais, através das redes sociais, da televisão, de documentários, matérias, consigam ter um papel de destaque. As pessoas conseguiram enxergar travestis e transsexuais para além daquelas que estão na esquina da prostituição.
Até um tempo atrás, se você procurasse a palavra travestis no Aurélio, o significado era “seres de hábitos noturnos’ que remetia à prostituição. Com o tempo, com os estudos, com as pessoas trans se inserindo cada vez mais em alguns ambientes cruciais foram mudando esse pensamento.
Hoje, ocupamos um papel muito diferente na sociedade. A gente está, obviamente, fazendo toda uma construção social para mostrar que as pessoas trans são para além da prostituição, de seres noturnos, são pessoas que são profissionais extremamente capacitadas que podem ocupar qualquer profissão, que podem estar na prostituição se quiserem, que precisam estar na educação.
A gente tem que conscientizar essa educação que hoje já temos, para uma mais inclusiva e humana, que garanta os direitos da identidade de gênero das pessoas travestis e transsexuais concluir o ensino médio nessa educação mais humanizada, consequentemente elas vão entrar na universidade ou vão conseguir almejar uma vaga na área de trabalho.
É um trabalho de formiguinha, de pouco em pouco, então acredito que a sociedade está tendo uma visão mais diferenciada, mais humana das pessoas trans. Óbvio que ainda há muito para se trilhar, mas esses pequenos passos que já foram dados são muito significativos para toda nossa população trans.
Este ano entrou em vigor a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 11) elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Até a sua última edição listava a transgeneridade como “Transtorno de Identidade de Gênero”. Agora, passa a constar como “Incongruência de gênero”, em um capítulo relacionado à saúde sexual. A CID é referência para profissionais de saúde, atendimentos e laudos. Qual a importância dessa mudança?
Daniella Veyga - A grande diferença é que a gente passou para uma classificação que desconsidera que a transsexualidade seja uma doença. Nós não estamos doentes. Se estamos doentes eu acho que a gente precisa ter uma aposentadoria, um auxilio doença, uma vaga especial no ônibus, quero ter acesso a uma fila preferencial.
Então, essa é uma grande vitória, foi um marco histórico para todo movimento de travestis e transsexuais do mundo, porque essa classificação é mundial. A gente passou a ser pessoa, deixamos de ser doentes, a gente não é doente, somente nos identificamos de uma outra maneira. Nos vemos de outra forma, mas isso não é uma doença.
Dados da União Nacional LGBT apontam que a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 35 anos. Geralmente, eles são mortos antes disso. A que atribui isso e como mudar esse cenário?
Daniella Veyga - Realmente a expectativa de vida das pessoas trans é de 35 anos por causa de todo o histórico. Agora, acredito que estamos tendo uma expectativa de vida um pouco maior, mas não veio nenhum estudo ainda.
Isso ocorre porque as travestis não têm acesso à educação de qualidade, são expulsas das escolas, a prostituição as abraça e nessa profissão elas estão à mercê do perigo físico, das DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), que sem o tratamento correto pode levar a morte e também do uso de drogas.
Então, é a marginalidade que acaba dando a expectativa de vida para as travestis de 35 anos. Na época que estava aquele debate efervescente sobre a reforma da previdência, que aumentou a idade para se aposentar, nós do movimento trans falamos que esse debate nunca nos contemplou, porque as pessoas travestis, além de não contribuir com a previdência social por não ter trabalho, nunca vão se aposentar porque morrem antes.
Para gente poder mudar esse cenário e dar uma perspectiva de vida maior às pessoas trans, precisamos garantir a educação, uma qualificação profissional para aquela que não quiser entrar na faculdade possa fazer um curso técnico. A partir disso, a gente vai dar uma expectativa de vida maior, porque por meio dessas políticas elas vão poder ter acesso à moradia, possibilidade de pagar a previdência social, elas vão ter direito a uma aposentadoria como todo mundo.
Por que a sociedade não aceita gêneros diferentes, corpos diferentes?
Daniella Veyga - A sociedade foi criada culturalmente para excluir aqueles corpos e aquelas identidades que não são o "padrão correto”. E o que não é o padrão correto da sociedade histórica? As pessoas negras, os corpos gordos, não são os corpos padrões, assim também os corpos trans, que são violentados.
Na sociedade que foi construída para ser branca, magra, de classe média, heterossexual e católica, todas aquelas outras que não se encaixam nesses perfis vão ou já sofreram algum tipo de violência. Assim são com pessoas de matriz africana, com pessoas evangélicas, pessoas que são baixas demais, altas demais, corpos gordos, tudo que foge da "normalidade", do "padrão".
Eu acredito que é um contexto histórico da sociedade e que precisa mudar, a gente precisa mudar esse pensamento. E a gente consegue educando os nossos pequenos, as crianças que vão estar em convívio com a sociedade.
Levantamento realizado pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e divulgado neste mês aponta que em cada 10 homicídios contra trans no mundo, 4 ocorreram no Brasil. Por que o país é tão perigoso para essa população?
Daniella Veyga - Os números da Antra a cada ano me surpreendem mais, tanto pela qualidade do dossiê em si quanto pelo número de assassinatos, em especial do Brasil, um país que é diverso, multifacetário e é o que mais mata pessoas trans no mundo. Na contramão, também é o país que mais acessa conteúdo pornográfico de pessoas trans. Então, é um número que não fecha.
É o país que mais deseja sexualmente as pessoas trans de forma escondida, sigilosa, e o que mais mata. Acredito que deve ser alguma questão psíquica, psicológica ou um mecanismo de defesa do opressor. A gente só consegue mudar esse cenário com políticas públicas, leis mais rígidas. Infelizmente, o transfóbico só vai parar a partir do momento que você priva ele de liberdade ou que toque no bolso dele. Assim como é com racistas, as pessoas assim, por mais racistas que sejam, sabem que não podem fazer isso porque vão ser presas. Não é porque é errado, elas não tem medo de serem racistas, elas têm medo de serrem presas, de pagarem multas, é o receio da penalidade, não do julgamento social.
É preciso de legislações mais rígidas para isso. No Brasil não tem nenhuma instituição pública que contabilize os dados de violência e de assassinatos de pessoas trans. Esse levantamento é feito de forma individual da Antra, dos movimentos sociais e grande parcela dos colaboradores desse dossiê, que são os jornalistas, a imprensa, porque é através da notícia que a gente fica sabendo de um assassinato de uma pessoa trans e vai buscar informações de como foi o crime para contabilizar no dossiê. Então, é o país que mais mata e o que se omite de políticas públicas contra assassinato das pessoas trans.
Os dados da Antra também indicaram que a morte prematura de menores de idade por homicídio vem crescendo no Brasil. O que essa realidade pode acarretar na vida dos jovens trans?
Daniella Veyga - As pessoas trans estão assumindo sua identidade cada vez mais novas. Antigamente, elas se assumiam já muito mais velhas, já haviam construído famílias, comprado casas, tinham uma estabilidade no trabalho e então elas se sentiam à vontade para assumir sua identidade como trans.
Agora está sendo mais cedo, por causa dessa desconstrução que a sociedade está passando. As pessoas trans novas estão se sentindo mais à vontade para assumir sua identidade. Isso faz com que elas se tornem trans mais jovens e sejam expostas à marginalidade mais jovens também, por isso a gente precisa voltar os olhares à juventude trans. Assim como a gente precisa falar das pessoas trans idosas, a gente precisa falar das trans jovens.
Precisamos desses mecanismos públicos de proteção para esta população para que, a cada dia, a juventude trans não possa morrer.
A inclusão de discussões sobre diversidade pode mudar esse cenário no país? Que outras medidas podem ser tomadas?
Daniella Veyga - A educação é a chave do sucesso, sem o ensino médio a gente não consegue um emprego, nem de gari. Para trabalhar é preciso ter ensino médio, por isso é preciso garantir que essa população possa entrar nas escolas, terminar o ensino. Isso é muito importante para que futuramente possa fazer um curso profissionalizante ou entrar na universidade e competir de igual para igual no mercado de trabalho.
A educação e o trabalho, esse elo, faz com que a gente possa concorrer e competir de igual para igual com quem teve oportunidades diferentes. É a chave para isso, então a gente precisa falar dos corpos trans na educação, precisamos preparar as equipes gestoras para respeitar e saber conviver com as pessoas trans, com acolhimento e uma educação humanizada.
Ainda segundo o levantamento da Antra, São Paulo foi o Estado que mais matou a população trans em 2021. Mato Grosso está em 15º, com uma queda desde 2019. Dá para atribuir essa queda a políticas governamentais, à segurança ou é ocasional?
Daniella Veyga - Mato Grosso não tem nenhuma política pública, mas acredito que a conscientização e o trabalho social colaboraram muito com a queda desse número. Aqui no Estado, a gente faz formação dos policiais militares para atuarem na abordagem das pessoas trans, em como eles podem trabalhar com essa população. Da mesma forma, fazemos isso com os policiais civis, com os delegados, com toda a esfera da segurança pública.
Essa formação dos movimentos sociais é de extrema importância para que esses números possam cair cada dia mais. No entanto, precisamos sim de políticas públicas que venham do executivo, do legislativo, para que a gente diminua ainda mais esses casos.
Um grande colaborador para que isso possa acontecer é a criação do conselho LGBT do Estado de Mato Grosso, que recentemente, o projeto de lei enviado pelo governador Mauro Mendes foi derrotado dentro da Assembleia Legislativa, por deputados conservadores, de cunho moralista, que falaram que isso seria privilégio.
Eu sempre ressalto que privilégio é ter acesso à saúde, à educação, é ter direito a vida e não um conselho que vai trabalhar em políticas públicas para a defesa de uma população que é sempre violentada e que não tem direito em Mato Grosso.
Em 2021, cerca de 78% dos assassinatos foram direcionados contra travestis e mulheres trans profissionais do sexo. Como analisa esse cenário?
Daniella Veyga - Os números de assassinatos são sempre maiores contra as pessoas trans que estão na prostituição. É o desacordo com o cliente, a violência gratuita das pessoas transfóbicas que vão até os pontos de prostituição somente para agredir... Nessas áreas, as meninas são expostas a tudo, o agressor pode apenas passar em um carro e bater.
Isso é muito comum no ponto de prostituição, a violência é muito maior. A gente precisa, além da proteção das meninas que estão nos pontos de prostituição, de políticas públicas para tirá-las da prostituição. A gente quer ser lembrada por outras coisas, pelo legado que deixamos em outras profissões, somos capazes de ocupar qualquer cargo público ou provado.
Mas precisamos urgente de normas mais rigorosas para coibir a violência e punir os violentadores de pessoas trans.
Seguimos para o último ano do governo Bolsonaro. Como foi esse período para os LGBTs? Foi difícil ter qualquer política para essa população?
Daniella Veyga - O Governo Bolsonaro foi um mandato que o movimento social em geral precisou mudar a sua estratégia de jogo. Enquanto a gente sempre pautava políticas públicas, cobrava, fazia audiências públicas para o avanço, precisamos mudar a tática.
Durante o governo Bolsonaro a gente precisou dormir com um olho aberto e outro fechado, porque nossos direitos eram tirados todos os dias. Como o conselho LGBT que foi extinto, os projetos que eram dos Ministérios da Saúde, da Educação, dos Direitos Humanos, que eram voltados para a população trans foram suspensos ou boicotados.
Então, enquanto a gente estava em um papel de proposição, passou a estar em um papel de vanguarda. Em vez de propor avanço, começamos a traçar estratégias para barrar retrocesso. E a maioria das políticas públicas que a população trans tem é oriunda do judiciário, de questionamento do judiciário, de interpretações deles. São pouquíssimas as que são oriundas do Executivo e Legislativo.
A gente consegue ver que o Judiciário está à frente de seu tempo, está guardando os direitos das pessoas trans. Enquanto quem deveria proteger está omisso.
Em 2018 e 2020, anos eleitorais, houve um crescimento na representatividade de LGBTs na política em diversos estados do País. Acha que a tendência deve se manter em 2022?
Daniella Veyga - Na última eleição, houve um salto muito grande, foi um crescimento de 200% de candidatas trans eleitas como vereadoras no Brasil. Então, a gente precisa ter um avanço grande nesse próximo pleito com deputados e deputadas para que nós mesmos, LGBTs, possamos pautar e defender as nossas causas nas casas legislativas.
Eu acredito e sonho que isso deva se repetir, porque a gente consegue ver muitos avanços por meio dessas novas eleitas que estão fazendo um excelente trabalho para todo Brasil. E a gente espera que possa haver novas eleitas que possam também fazer esses trabalhos no país.
Precisamos de pessoas trans na Câmara dos Deputados, dentro das Assembleias, é a partir daí que a gente consegue ter uma convivência com pessoas trans, ter um diálogo de forma diferenciada e vão conseguir enxergar que não é só prostituição, só rua, só esquina. Que pessoas trans são políticas também, que conseguem falar sobre orçamento, sobre legislação, sobre administração pública.
Por outro lado, em Mato Grosso praticamente não há LGBTs na política. É possível mudar isso este ano? De que forma?
Daniella Veyga - A gente consegue mudar esse cenário político do Estado participando ativamente das eleições, apoiando candidatos e candidatas que de fato são comprometidos com as pautas LGBTs. E, o mais importante, precisamos com urgência de candidatos e candidatas LGBTs. Porque estamos cansadas de ter que bater na porta de gabinete para pedir ajuda de pessoas que não são LGBTs e que muitas vezes acham que estão fazendo favores, mas não.
A gente precisa de LGBTs que sejam vereadores, deputadas, prefeitos, precisamos ocupar o legislativo e o executivo. É preciso concorrer aos pleitos eleitorais também.
Fonte: AN

























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